Por que a liderança precisa controlar o estresse?

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br 

Estudo recente, realizado pelo International Business (IBR), da Grant Thornton International, apontou dados preocupantes: os empresários brasileiros encontram-se entre os que são mais afetados pelo estresse. Essa pesquisa foi feita junto a mais de seis mil empresas em 40 economias. Isso revela que mesmo aqueles se encontram no topo da pirâmide corporativa não estão livres de serem vítimas de fatores estressantes. E o problema não “congela” apenas neles, uma vez que quando as lideranças encontram-se estressadas, os reflexos são extensivos aos membros das suas equipes. 
Para saber como os líderes podem amenizar o estresse em suas vidas, o RH.com.br entrevistou Marcia Vespa, diretora de Educação Corporativa da Leme Consultoria, psicóloga, especialista em Gestão de Pessoas e coach. Segundo ela, o estresse é uma reação natural e importante do organismo frente a situações de desconforto, e está mais presente quando as exigências são superiores à capacidade de entrega. “O problema é quando o organismo é submetido ao estresse constante, ou seja, a reação cujo objetivo inicial é proteger pode transformar-se em um inimigo fatal.”, alerta, ao lembrar que encontrar líderes infelizes tem sido uma constante e isso a preocupa.
Durante a entrevista, Marcia enfatiza pontos importantes e práticos que podem ser aplicados por líderes de qualquer segmento organizacional para aliviar a tensão provocada pelos níveis elevados do estresse. Vale lembrar que ela participará da Jornada Virtual de Liderança, evento promovido pelo RH.com.br, no período de 13 a 28 de setembro de 2012. Na ocasião, nossa entrevistada ministrará a palestra “O que fazer para tornar as equipes mais efetivas?”. Tenha uma agradável leitura!

RH.com.br – Sabemos que o estresse está presente no dia a dia de milhões de profissionais, devido às constantes cobranças impostas pela competitividade. Em sua opinião, as lideranças brasileiras estão conseguindo conviver com o estresse? 
Marcia Vespa – Veja, é bom explicitarmos que o estresse é uma reação natural e importante do organismo frente a situações de desconforto, mais comumente presente quando as exigências são superiores à capacidade de entrega. Até aqui tudo muito produtivo e vantajoso. O problema é quando o organismo é submetido ao estresse constante, ou seja, a reação cujo objetivo inicial é proteger pode transformar-se em um inimigo fatal. A pressão do dia a dia, seja externa ou interna, tem levado líderes a se desequilibrarem com mais frequência, seja manifestando comportamentos socialmente inaceitáveis que podem ser expressos através de gritos, palavras agressivas -, seja o embotamento, de isolamento, uma manifestação clara da frustração, da baixa autoestima, da falta de foco e planejamento. Enfim, não tenho encontrado líderes felizes e isso me preocupada muito.

RH – Quais os principais fatores estressantes que mais prejudicam os líderes no Brasil?
Marcia Vespa – Pense comigo: de modo geral o estresse costuma fazer-se presente quando a complexidade do desafio é superior às competências existentes seja para encontrar respostas, seja para fazer as entregas. Isso mesmo… O individuo não se percebe com competência para transformar problemas em aprendizado, para encontrar respostas ou alternativas para sair da zona conforto e minimizar ou eliminar possíveis impactos do problema vivido. O mundo está volátil demais, e o que deu certo no passado hoje não se replica. 

RH – Existe uma linha de pensamento que defende que o estresse pode ser benéfico. A senhora concorda?
Marcia Vespa – Vamos analisar uma vida sem estresse: é exageradamente entediante. É como se você não tivesse um motivo para viver, e sim a presença permanente de um vazio. Uma vida sem objetivos, sem desafios, inibe a liberação do potencial e o líder passa a fazer tudo sempre do modo, sem ganhos, sem crescimento. Mesmo que num primeiro momento a situação possa parecer insolúvel, é importante acreditar que tudo existe uma solução. É como já dizia Nietzsche: o que não te mata te fortalece. Não há ganhos sem dor. Todo problema é um convite da vida para nos tornarmos melhores, as melhores pessoas que podemos vir a ser, você compreende? Desafios somados a competências são fatores gerados pelo bom estresse.

RH – Em que momento o estresse passa a ser um risco para a pessoa?
Marcia Vespa – Quando a sensação de perigo, seja real ou imaginário, passa a ser frequente, ininterrupta. Uma reação, portanto, cujo objetivo inicial era proteger, pode transformar-se em um inimigo fatal. A forma como eu vejo o mundo, define a forma como eu decido e, portanto, ajo. Precisamos ajudar as pessoas a mudarem a forma de pensar.

RH – Que reflexos isso traz às lideranças seja no campo profissional ou pessoal?
Marcia Vespa – Todos somos frutos das relações. Vivemos em sistemas – relação com os filhos, os parceiros, a família, a empresa, os chefes – que influenciamos e que nos influenciam mutuamente. Em boa parte do nosso tempo estamos sujeitos ao estresse físico e psíquico. Os revezes na vida são inevitáveis, nos desesperar é uma escolha. Enquanto o profissional não se ver com recursos internos para lidar com os problemas, ele catastrofiza a situação, tornando o ambiente penoso demais para o convívio.

RH – Líder estressado torna-se sinônimo de time em “alerta vermelho”? 
Marcia Vespa – Tudo vai depender de como ele está manifestando o estresse. Veja, se ele está preocupado, ansioso, temeroso por não encontrar respostas para os problemas ou por não estar atingindo um resultado, esse desafio não pode ser apenas dele, pois este é um desafio da equipe também. Portanto, por que não envolvê-la? Essa é a forma mais inteligente de lidar com a situação. O líder precisa definitivamente entender que não cabe a ele ter respostas para tudo. Usar os neurônios da equipe faz um bem danado. O líder pode surpreender-se com os resultados. Portanto, desça do pedestal e admita que sozinho não se chega ao pódio nem em épocas de vacas gordas, quiçá agora em tempos de exigências e desafios.

RH – Graças à sua atividade de consultora, a senhora tem a oportunidade de conviver com lideranças de segmentos corporativos diferenciados. Quais as reclamações mais constantes que os líderes manifestam em relação ao estresse?
Marcia Vespa – A maior demonstração de insatisfação, de decepção, de tristeza mesmo tem sido verbalizada como “agressão dos meus valores”, por não entenderem e, por isso, não aceitarem parte das decisões que os principais dirigentes das empresas estão tomando em prol da competitividade e da aceleração de resultados. Isso tem maltratado os líderes de empresa, pois são eles os questionados. Sabendo que cuidam de um empreendimento e não deveriam demonstrar a sua insatisfação, se veem como um arquivo zipado, tendo que motivar a equipe a executar o que não acreditam ser o melhor para a empresa. Estamos vivendo uma era de muita arbitrariedade. Um discurso totalmente incoerente com as práticas. Esta falta de credibilidade tem aumentado os custos da empresa e diminuído a sua capacidade de gerar respostas rápidas ao mercado. Muitos estão com medo ou estão descrentes. 

RH – É possível ser líder e controlar o estresse?
Marcia Vespa – Sim, claro. Para controlar o estresse este líder precisa compreender que há varias áreas na vida que precisam ser priorizadas. A saúde física, a saúde familiar, a saúde social e a saúde social são algumas delas. Para ter uma alta performance o líder precisa, obrigatoriamente, ter momentos de lazer, estar com as pessoas que mais fazem sentido na vida dele para não ter a sensação de ausência – mas estar mesmo por inteiro, sem BlackBerry ou laptop a tiracolo – ter um grupo de amigos fora da empresa para discutirem questões de trabalho e se ajudarem mutuamente sem a preocupação com a competição ou com o que será feito com as suas palavras. O líder precisa cuidar de si, oxigenando entre o físico e o intelecto. É fundamental fazer exercícios físicos com frequência, de forma regrada e check-ups periódicos. Todos nós temos as nossas fragilidades, identificá-las e prevenir problemas é sempre mais inteligente e prudente. O problema é que muitos dizem não ter tempo. Então, isso é só o prenúncio que não está doendo tanto, não é mesmo?

RH – Que conselhos a senhora deixaria para os líderes estressados e que não conseguem lidar com esse problema?
Marcia Vespa – Primeiro assumirem que não estão conseguindo lidar com a pressão do mundo externo ou interno. Isso não é demonstração de vulnerabilidade. Pelo contrário, é demonstração declarada do desejo de se melhorar, do desejo de vencer, de ultrapassarem a adversidade. Depois que sejam capazes de entender que absolutamente tudo tem solução. Cuidem-se. Todas as sugestões estão acima. Busquem ajuda. O processo de coaching costuma ajudar bastante no alinhamento dos objetivos pessoais aos organizacionais com foco, estruturação e mudança na forma de pensar. Se você mudar a sua forma de pensar, mudará a forma de fazer. Seja você. Seja feliz! É mais que um dever. É um direito seu.

Fonte: rh.com.br

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